quarta-feira, 23 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
O Grande Discurso da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, na Cerimónia de Homenagem a José Saramago
Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra, um soldado maneta, uma mulher que tinha poderes, e um padre que queria voar numa Passarola e que morreu doido;
Era uma vez Jesus, que disse a Maria Magdalena - “quero estar onde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos”;
Era uma vez um cão que lambeu as lágrimas a uma mulher desesperada num mundo de cegos, desejando também cegar para ser poupada aos horrores que a vista lhe trazia;
Era uma vez a morte, que tinha um plano e que o cumpriu – abraçou-se ao homem sem que ele compreendesse o que lhe estava a suceder, e ela, a morte, que nunca dormia, deixou descair suavemente as pálpebras enquanto adormecia; no dia seguinte, ninguém morreu;
Era uma vez um homem, que quando morreu, partiram 2 pessoas: saiu ele, de mão dada com a criança que foi – tal como o próprio José Saramago previu, nas suas próprias palavras.
Era uma vez e tantas outras vezes, o respeito à terra e aos homens, a luta contra as injustiças, a defesa dos direitos humanos, a denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana, as causas dos Sem Terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado.
Estas e tantas outras, foram as histórias com que o ateu místico, religioso laico, interrogador de Deus e dos homens, José Saramago, “comunista hormonal” nas suas palavras, questionou Portugal e o mundo incessantemente, directa ou metaforicamente.
A liberdade do pensamento define o criador: Saramago foi voz lúcida, inconformada, firme, insubmissa na luta contra a desigualdade entre os homens – esta sim “a verdadeira miséria”, dizia.
Parte da imensa receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que a atribuição do Nobel cimentou e glorificou, deve-se a esse carácter humanista, à esperança que a sua obra impõe ao Homem.
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura «... pela sua capacidade de tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia», segundo a Academia Sueca.
Fiel ao seu compromisso com a consciência, usou a escrita para uma reflexão sobre as grandes causas da humanidade, edificando uma obra coerente, ousada, sólida, moldada pela ética, visando, sempre, a dignificação do Homem.
E fê-lo por vezes subvertendo normas - quer de narrativa (o seu estilo é inconfundível, nas suas frases longas e de pontuação singular), quer enfrentando dogmas - não tinha fé em Deus (mas certamente Deus teve fé nele).
Para ele a escrita, enquanto forma de expressão do pensamento e de intervenção intelectual, foi instrumento, foi arma, foi agente provocador e plataforma de interrogação permanente do indivíduo e da sociedade.
Com a sua actividade cívica aliada à criação literária, cumpriu aquilo que é mais caro aos criadores e aos artistas – conseguiu com a sua obra fazer pensar os destinatários, perturbar os conformados, incomodar as consciências e aguçar a lucidez.
Deixa a Fundação José Saramago, à qual se dedicará a companheira e musa da sua vida, Pilar Del Rio, força inabalável que foi determinante na sua alma e na sua obra, a quem também prestamos aqui homenagem. Fundação José Saramago que assume, entre os seus objectivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea, a defesa e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos e o cuidado do meio ambiente.
Enquanto escritor português, José Saramago deu um incontestável contributo para a afirmação e difusão da Língua Portuguesa, para a divulgação da Literatura Portuguesa e para a união do mundo lusófono. Embaixador da cultura portuguesa no mundo, a influência da sua obra estendeu-se a um amplo espectro de outras expressões artísticas - na ópera, no cinema, nas artes visuais, sublinhando a universalidade da sua linguagem.
A Literatura Portuguesa, as Literaturas em Português, com Saramago, adquiriram ressonância internacional e prestígio global, pela universalidade das questões que o Escritor agarra e reflecte com tenacidade e vigor, e pelo génio sísmico com que as dá a ler, a pensar, através da sua escrita.
Portugal homenageia hoje o homem, simples, sensível e corajoso;
Portugal celebra em Saramago, a sua humanidade, grandeza e universalidade;
Portugal orgulha-se do Escritor e engrandece-se com a sua obra, poliédrica, ímpar e seminal.
Portugal agradece, sentida e sinceramente, o encontro mágico de Saramago com a Literatura, e o lugar único e perene que José Saramago ocupará para sempre na Literatura e na Cultura do mundo.
Como escreveu ontem um amigo a Pilar, - Não há palavras. Saramago levou-as todas…
Obrigado José Saramago.
Era uma vez Jesus, que disse a Maria Magdalena - “quero estar onde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos”;
Era uma vez um cão que lambeu as lágrimas a uma mulher desesperada num mundo de cegos, desejando também cegar para ser poupada aos horrores que a vista lhe trazia;
Era uma vez a morte, que tinha um plano e que o cumpriu – abraçou-se ao homem sem que ele compreendesse o que lhe estava a suceder, e ela, a morte, que nunca dormia, deixou descair suavemente as pálpebras enquanto adormecia; no dia seguinte, ninguém morreu;
Era uma vez um homem, que quando morreu, partiram 2 pessoas: saiu ele, de mão dada com a criança que foi – tal como o próprio José Saramago previu, nas suas próprias palavras.
Era uma vez e tantas outras vezes, o respeito à terra e aos homens, a luta contra as injustiças, a defesa dos direitos humanos, a denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana, as causas dos Sem Terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado.
Estas e tantas outras, foram as histórias com que o ateu místico, religioso laico, interrogador de Deus e dos homens, José Saramago, “comunista hormonal” nas suas palavras, questionou Portugal e o mundo incessantemente, directa ou metaforicamente.
A liberdade do pensamento define o criador: Saramago foi voz lúcida, inconformada, firme, insubmissa na luta contra a desigualdade entre os homens – esta sim “a verdadeira miséria”, dizia.
Parte da imensa receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que a atribuição do Nobel cimentou e glorificou, deve-se a esse carácter humanista, à esperança que a sua obra impõe ao Homem.
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura «... pela sua capacidade de tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia», segundo a Academia Sueca.
Fiel ao seu compromisso com a consciência, usou a escrita para uma reflexão sobre as grandes causas da humanidade, edificando uma obra coerente, ousada, sólida, moldada pela ética, visando, sempre, a dignificação do Homem.
E fê-lo por vezes subvertendo normas - quer de narrativa (o seu estilo é inconfundível, nas suas frases longas e de pontuação singular), quer enfrentando dogmas - não tinha fé em Deus (mas certamente Deus teve fé nele).
Para ele a escrita, enquanto forma de expressão do pensamento e de intervenção intelectual, foi instrumento, foi arma, foi agente provocador e plataforma de interrogação permanente do indivíduo e da sociedade.
Com a sua actividade cívica aliada à criação literária, cumpriu aquilo que é mais caro aos criadores e aos artistas – conseguiu com a sua obra fazer pensar os destinatários, perturbar os conformados, incomodar as consciências e aguçar a lucidez.
Deixa a Fundação José Saramago, à qual se dedicará a companheira e musa da sua vida, Pilar Del Rio, força inabalável que foi determinante na sua alma e na sua obra, a quem também prestamos aqui homenagem. Fundação José Saramago que assume, entre os seus objectivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea, a defesa e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos e o cuidado do meio ambiente.
Enquanto escritor português, José Saramago deu um incontestável contributo para a afirmação e difusão da Língua Portuguesa, para a divulgação da Literatura Portuguesa e para a união do mundo lusófono. Embaixador da cultura portuguesa no mundo, a influência da sua obra estendeu-se a um amplo espectro de outras expressões artísticas - na ópera, no cinema, nas artes visuais, sublinhando a universalidade da sua linguagem.
A Literatura Portuguesa, as Literaturas em Português, com Saramago, adquiriram ressonância internacional e prestígio global, pela universalidade das questões que o Escritor agarra e reflecte com tenacidade e vigor, e pelo génio sísmico com que as dá a ler, a pensar, através da sua escrita.
Portugal homenageia hoje o homem, simples, sensível e corajoso;
Portugal celebra em Saramago, a sua humanidade, grandeza e universalidade;
Portugal orgulha-se do Escritor e engrandece-se com a sua obra, poliédrica, ímpar e seminal.
Portugal agradece, sentida e sinceramente, o encontro mágico de Saramago com a Literatura, e o lugar único e perene que José Saramago ocupará para sempre na Literatura e na Cultura do mundo.
Como escreveu ontem um amigo a Pilar, - Não há palavras. Saramago levou-as todas…
Obrigado José Saramago.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
quarta-feira, 16 de junho de 2010
domingo, 9 de maio de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
Comemoração Republicana
"Os partidos políticos representados na Assembleia Legislativa dos Açores não conseguiram chegar a um acordo quanto às personalidades que serão condecoradas nas comemorações do Dia da Região, que se assinala esta ano a 24 de Maio, no Corvo.
A lista com o nome de 31 personalidades e instituições, que deverá ser aprovada pela maioria socialista na sessão plenária que começa a 18 de Maio, não reuniu o consenso de todos os partidos, segundo apurou ontem a Lusa junto de fontes partidárias.
O PSD manifestou o seu descontentamento por o PS ter avançado com uma proposta sem que tivesse sido obtido um acordo, enquanto o PPM se pronunciou contra a proposta por ela contemplar Manuel de Arriaga e Teófilo Braga, os açorianos que foram os dois primeiros presidentes da República Portuguesa.
António Marinho, líder parlamentar do PSD/Açores, criticou a "postura" dos socialistas, que acusou de não terem procurado o consenso ao "apresentar uma proposta como facto consumado".
Por seu lado, o PPM entende que "não existe nada para comemorar em relação à implantação da I República", considerando os monárquicos que ela resultou "do derrube de forma violenta de um regime político que era certamente um dos mais democráticos da Europa na época".
A lista das condecorações proposta pela maioria dos deputados inclui a atribuição da Insígnia Autonómica de Valor, a mais importante da região, ao faialense Manuel de Arriaga e ao micaelense Teófilo Braga.
A Insígnia de Reconhecimento deverá ser atribuída, entre outras personalidades, ao ex-deputado socialista Cunha de Oliveira, ao militar de Abril Ernesto Melo Antunes e aos antigos membros do governo regional Carlos Corvelo e Raul Gomes dos Santos.
O jornalista Gustavo Moura, os escritores Daniel de Sá, Álamo Oliveira e Eduíno de Jesus, o dramaturgo Norberto Ávila, o pintor Nuno da Câmara Pereira e o ex-autarca Rui Meireles são outros nomes que deverão receber esta distinção.
Por seu lado, a atribuição da Insígnia de Mérito Profissional deverá ser entregue, a título póstumo, aos médicos Estrela Rego, Homem de Gouveia e a George do Nascimento.
Entre as personalidades que deverão ser condecorados encontram-se também o advogado Carlos Melo Bento, o dirigente comunista José Decq Mota, o jornalista Ruben Rodrigues e o Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Praia da Vitória, Francisco da Silva Ferreira.
A cerimónia oficial do Dia dos Açores vai ser realizada este ano no Corvo, a mais pequena ilha do arquipélago e a única que ainda acolheu estas comemorações.
O Dia dos Açores, que se destina a comemorar a açorianidade e a autonomia, foi instituído pelo parlamento regional em 1980, tendo sido já comemorado em oito ilhas do arquipélago e junto de comunidades emigrantes, como Fall River (EUA) ou Toronto (Canadá)."
A União, 8 de Maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
O Fim de uma Época
Não sei precisar bem quando é que os Açores deixaram de ser uma democracia, mas arrisco afirmar que aí entre finais de 1996 e meados de 1997 o partido socialista se transformou no que é hoje: um partido refém do poder e prostrado ao culto monoteísta de um homem.Penso também que, para aí no final do ano 1996, os socialistas desistiram de tentar governar – no sentido estrito do conceito - os Açores. Entretanto perderam-se 14 anos da nossa vida colectiva neste letargo socialista. Um dia isto terminará porque, na pior das hipóteses, o Carlos César deverá querer gozar umas merecidas feriazinhas para quebrar a rotina de mais de trinta anos no Parlamento Regional.
Penso que o homem deve olhar para as bancadas do Parlamento e perguntar-se o que está ali a fazer. Não resta ninguém da sua geração parlamentar, nem da seguinte, nem ninguém a seguir à da seguinte. Já enterrou todos os seus adversários políticos e reformou compulsivamente os velhos e as almas mais independentes do PS. A actual bancada socialista assemelha-se a um bando de caloiros que o Presidente do Governo Regional chefia e praxa a seu bel-prazer.
É certo que bate aos pontos qualquer adversário parlamentar que lhe surja pela frente – continua a ser um brilhante orador – mas a mim fica-me sempre a sensação que ele já não tira verdadeiro gozo dos despiques e das vitórias retóricas. Ele sabe que o seu tempo já passou e que é uma espécie de dinossauro fora do Parque Jurássico. Acho até que se terá sentido como um peixe na água na recente reunião do Conselho de Estado.
Devíamos pensar em criar uma espécie de Conselho da Autonomia nos Açores. A ideia é dar uma reforma digna aos nossos maiores. Talvez se evitassem assim as caminhadas erráticas e intermináveis das almas de outros tempos.
De qualquer forma, ganhava-se sempre uma boa aula de História. O meu filho mais novo perguntou-me, ao ver as imagens da última reunião do Conselho de Estado, quem foi o General Eanes. Eu disse-lhe que foi um militar numa guerra perdida, o verdugo de uma revolução derrotada, o Presidente do país na época das calças em boca-de-sino, o líder de um partido trucidado e que o Carlos César era o que estava ao lado.
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